ESTUDO 199 Monstros míticos invadem minha mansão crepuscular. 1. Quem sou eu na tarde esconsa? E esses monstros no hall com seus olhos, ódios, urros? A voz que chama do fundo do Eoceno, é a mesma? E quem são esses que vagam entre penumbras e ossadas? E essa cicatriz dura? 2. Monstros aqualobros, rostos entre perdidos e amados. (Ulisses descendo o Hades conversando com os amigos.) Que fazem em mim estas águias, por que bicam-me o fígado? (Minha face que a não vejo nesse espelho inarredável.) 3. Que ventos vêm de tão longe e desabam minha casa? Que ventos tão loucos bramem? (Notas graves, sono profundo – e estamos do lado de lá.) Ah sonhos ah tarde ah sombras, tomai conta deste crânio: descei, já, severamente!
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h25
[]
[envie esta mensagem]
[link]
ESTUDO 175 Estar com o rio não é molhar-se na água. Nem ser leito. É ser a água e o leito. E o mar. E ser as nuvens do céu. Nosso destino é o que somos. Somos o destino – o olho d’água e a foz. Somos a foz e o ruído das águas se encontrando. E as nuvens do céu e o homem sentado numa pedra. E a pedra. ESTUDO 179 Quero fazer um poema reto. Sem emoções – que essas nos embaraçam. Sem sutilezas semânticas ou glaxúrdias gramáticas. Quero fazer um poema simples, sem sentido. (Que o essencial não tem sentido.) Quero escrever como se uma árvore soubesse olhar as nuvens: um poema que só por existir se explique e me explique.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h24
[]
[envie esta mensagem]
[link]
ESTUDO 157 Minha poesia é ríspida. Não há maneira de nublá-la. É ríspida. Estas lições não aprendi com o vento. Sou homem. O vento permaneça nas alfombras, nas frondes. Eu, sou homem. E sinto dores, fomes, injustiças. Não sou o vento que tange árias dúcteis nos eucaliptos: sou um homem; e vejo os homens de banda. Não aprendi com o vento estas lições. O vento é o vento, eu sou um soluço. É ríspida minha poesia. Não aprendi com o vento, mas com os homens. E os homens não passam – os homens doem. ESTUDO 165 Compor um homem com suas tramas, seus dramas, teogonias, gramáticas, soluços; compor um homem, do orvalho matinal compor um homem, do céu cheio de estrelas, do mistério do homem compor o homem; compor um homem da criança que há no homem, do homem a adivinhar-se em antiqüíssimas retinas; compor um homem com seus soluços, gramáticas, teogonias – e recitá-lo perante os outros homens.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h23
[]
[envie esta mensagem]
[link]
ESTUDO 124 Desce sobre mim a paz do longe, a paz do sublime. Ergo meus olhos: o horizonte eleva-se no ar, flutua. O sol se esquece de ir embora e dança, silencioso, a valsa sideral dos astros loucos. As árvores cochicham e olham, mudas, o insólito. As beldroegas do campo também sabem que é enorme o segredo. Uma coluna vertebral de nuvens medita o mundo. O horizonte levita. A brisa não move as folhas dos arbustos; escuta. E um calango brinca em meus pés pois sabe que sou puro. ESTUDO 148 Que tanto buscamos? O rabo esquecido na alba? Quem tanto nos chama? A voz esquecida no antanho? Quem chama? Onde estamos? Quem somos? Sabíamos que é fim? É silêncio o nome que bradam as máquinas obscuras do Tempo? Que tempo? Que tempos? Quem somos?
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h22
[]
[envie esta mensagem]
[link]
LOUCURA E POESIA Furtava as cores de todas as paisagens que colhia. Um dia morreu e um arco-íris bebia seus olhos. CENA VISTA DE BINÓCULO Em meu chapéu pousou um rouxinol. ESTUDO 123 Morei na barriga de Deus. Auscultei o centro do mundo, as pulsações dos seres vivos, mortos e incriados. Uma dor enorme encheu-me o peito: ó saber-se deus e não ter forças! (Residi no abdômen do divino trinta anos.) Pus meu ouvido no alfa e no ômega: vi o princípio e o fim vezes sem conta. Tudo começa e morre e recomeça e morre e recomeça. O incriado vi; a estrela fútil – fósforo que se acende num estádio de futebol. (Porque morei no bucho do Perfeito.) E vi o universo morrer e vi seus ossos: escuro no escuro maior, cão no silêncio. A tudo vi e meditei e clamo: ó saber-se divino e ser só homem!
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h19
[]
[envie esta mensagem]
[link]
COM / SEM Morreste em mim domingo à tarde. Em vão te procurei nos alfabetos: os hieróglifos da memória emudeciam. Como um grito que só tivesse o eco: não, não me resta nada a perfazer. Tudo em mim se cumpriu, só eu não me cumpri. Do que ficou, construí um poema amargo. E os dias a se estamparem nas retinas me lembrarão sempre que tu morreste em mim domingo à tarde. E eu em mim morri todos os dias. CONCERTO P/ FLAUTA E COPOS DE CRISTAL Passarei minha vida olhando aquela montanha, a esperar que ela se mova. Não se moverá, tenho certeza, mas passarei minha vida diante dela.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h18
[]
[envie esta mensagem]
[link]
DOS DIÁLOGOS DE DEUS COM AGAPANTO Poeta, ergue-te deste túmulo de rosas plásticas, ouve meu canto, meu canto, ouve meu canto e minhas liras, alvas manhãs renascem nos meus ombros. Tu, ó perfeito, o que ensina aos girassóis o espanto, o que cativa as borboletas, tu ó perfeito, vem, vem a mim, tange meus alaúdes, frange meus olhos, luz, cega-me, ama-me! O OLHO SEM LINCE O que tive perdi num dia surdo e minha irmã me chamava do quintal. A casa era salobra e percutia o tanque estava cheio de piabas. Minha irmã, sua voz (o dia urdia surdo os peixes sufocavam-se na sala) a ecoar meu nome e eu não sabia eu não sabia que tudo estava morto. E minha irmã não pára de chamar-me.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h18
[]
[envie esta mensagem]
[link]
TODO POEMA É IRRACIONAL Que iguais não somos – e as iguarias da mesa do nefasto do nefando do ufando e ubíquo que habita o fundo do nosso occipital (que iguais não somos) e se o som de intempéries fere o tímpano (de intempéries) melhor não sermos os vivos que sabemos (que somos) que sonos maiores virão nas hecatombes ao deus maior ofertadas – maior – com todo o amor que o peito jamais houve (que iguais – iguais – não somos). Jamais seremos. Eu, tão fugaz as coisas tão perenes! POEMA DE AMOR E era azul o dia da partida. Não um azul azul como os azuis da alma colorida, mas negro azul, profunda escuridão beirando o nada. Azul assim, hermético, escuro – escuro como a alma, não a calma, a alma: pois era azul, luz última, o dia da partida.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h17
[]
[envie esta mensagem]
[link]
AS ASAS DO PÁSSARO FÊNIX p/ Jacinto Prisco Acalentarei a esperança de ser belo, de ter o corpo luminosamente azul, a esperança de ser o fogo e o vulcão, a água e o vulcão, ser volátil, passáreo, pergaminho onde se inscrevem estrelas e saudades, ai acalentarei pelo resto dos meus dias acalentarei esta sofreguidão pelo perfeito, esta imagem de todos os eus que fui, súbito aqui - como um presente ofertando-se, irmãos: pacificados. BARCA 1. Perscruto os acontecimentos: a História move seus ponteiros, ágil. Não estamos montados no vento. Os homens são produtos de que álgebra enigmática? Não nos entendemos. Não nos entendamos. 2. Domar acontecimentos. Ó esperança pueril. A poesia não aprende, nunca aprende. São címbalos ou canhões? Prenúncio ou símbolo fantástico? Que símbolo? que valsa? que sinistra sintaxe? Chove nos nossos cabelos. 3. De que nuvem ou estrela és feito, poeta? Sou feito das vibrações do orvalho à borda de um pétala. Contem-me de outra humanidade!
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h17
[]
[envie esta mensagem]
[link]
DA CAPO E como eu estivesse a ruminar-me nas horas todas idas da jornada / e longa fosse a vida e áspera a vida e a caminhada áspera como a vida / e como eu estivesse sobre espinhos e muito não encontrasse em toda parte / e cheia de interlúdios e de espinhos cheia a vida – e a estrada não findasse / e como me incitassem mil erínias obrigando-me a chorar e a quedar-me / e longa fosse a vida e áspera a vida e muito não encontrasse em toda parte / CALVÁRIO Serei o cálice a ti oferecido e o amargo; serei o sol e o frio; serei a lança perfurando a carne; a mão que não se estendeu; as cicatrizes; serei o âmago dolorido; a face; a complacência divina emudecida; serei a humanidade e o vento; serei oito milênios de agonia e espera; serei o desespero e o desesperado e a coroa de espinhos dando flores.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h16
[]
[envie esta mensagem]
[link]
LÍRICA Amar é temer a si nas horas cruas, é não encontrar a pérola perdida onde? amar oh amar é saber-se pequeno, sísifo, somente – é saber-se somente, unicamente – oh amar! – amar amar como se a própria face não bastara – e completar-se na face projetada e projetar-se no gozo e além do gozo e além do gozo no filho e além do filho na eternidade, amor ah amor é saber-se perdido, é não saber-se: e amanhã será tudo esquecido. PEQUENO CONCERTO P/ OBOÉ E FLAUTA ÚMIDA Contaram-me que te ias. Com um girassol nos olhos, te ias. Não olhava atrás, nada existia que te pudesse lembrar a permanência. Que te ias, te ias para regressar nunca mais – como costumam ir os feridos, os que não perdoam ou temem perdoar. E me deixavas, comigo a esperança que tudo desse errado: que o trem não partisse, que a chuva caísse, que a guerra estourasse, que houvesse um eclipse solar, que fosse sonho e não fosses. Mas te ias. Só a partida ficava impressa nas retinas. A partida.
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h15
[]
[envie esta mensagem]
[link]
A EMENDA & O SONETO 1. O soneto Em meio a temporais, saibamos ser a haste pequenina que se verga. Pois uma coisa é certa: tudo acaba. E o céu ficará limpo como era. 2. A emenda Em meio a temporais, saibamos ser a haste pequenina que se verga. Pois uma coisa é certa: tudo acaba. Não só acaba como não acaba. POEMA Ó sideral galáxia de mil sonos! Onde os primeiros poetas, onde os domadores indômitos de nuvens? Dirias, sideral galáxia, que me perco em palavras... Ó sideral galáxia, minha galáxia, por certo me perdi. Mas não perdi a estrela que inscrevi no peito um dia – e como brilha, como brilha! Mas que fazer de uma estrela que brilha?
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h15
[]
[envie esta mensagem]
[link]
AS RAÍZES 1. Ainda que fôssemos juntos por estas alamedas sem fim ainda assim não jantaria à noite teus jantares. Meus irmãos, não vos traí. Apenas estudo o inimigo na horta do inimigo. Não vos traí nem vos traio na noite em que todos traem. 2. Vou ver o desfile dos anjos com suas trombetas de papelão :anúncio de fim dos tempos ou grande queima de retalhos? Ah, as raízes, cortai as raízes irmã dos ventos! Vou sonhar com os elefantes da montanha são treze elefantes verdes galgando a montanha insólita procissão de elefantes galgando a montanha. A FESTA e estes tangos noturnos e estas luzes e vozes / sons que rompem estas paredes e depositam-se nos lustres; aqueles alvos pingentes tocando-se suavemente / o som dos teus lábios mudos sussurrando atrás dos vidros; o ronco dos automóveis qual neblina empedernida / o cheiro de leve pó de assoalho e talco Ross; as gargalhadas em flashes: instantâneos de terror / gotículas de suor no buço oxigenado da moça burra; gotas mornas sobre o cristal da taça esquecida / quatro velhas numa mesa observando sapatos; o homem terçando as chaves do carro, maquinalmente / o crooner esgoelando-se, o matalofonista duro; uma lâmpada fluorescente ora apagando-se ou acendendo-se / e estes tangos soturnos e estas vozes e luzes /
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h14
[]
[envie esta mensagem]
[link]
COISAS GUARDADAS Florzinha branca, quando eu me libertar de tudo isso... QUADRO NA PAREDE Diante de mim a rendeirinha de Vermeer, olhos baixos, medita sem meditar sobre seu mundo rendado. Toda a verdade é só ponto de cruz. DAS DEFINIÇÕES DE MANOEL, O SÃO A vida – diz Manoel, o são – é tempestável. E que é tempestável, Manoel? Tempestável? Ah, tempestável ! É a vida, filho. Quem lá sabe ! VIOLA DE AMOR Nas ondas do mar me enlevo nessas ondas me redimo meus sofrimentos são nada nas águas das ondas claras (nos ventos do mar me enlevo nesses ventos me redimo sofrer é estar de passagem entre o agora e o eterno) Como as ondas que se quebram e são sempre as mesmas ondas vou seguindo meus destinos como as ondas que se quebram (como os ventos que nos passam e nos levam os pensamentos vou vagando, vendaval devassando e devassado)
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h13
[]
[envie esta mensagem]
[link]
A AREIA E O VENTO A areia e o vento, dois dos meus ancestrais: um sem fim, outro sem data. Meus passos me levam longe: pela areia, onde não sei – no vento, não sei quando. A areia e o vento – dois motivos secretos de viver, ir vivendo. MELOPÉIA Ai esta vontade imensa de calar! De esparramar o pó dos pensamentos tão longa e longamente arquivados; de apagar os rastos e os projetos e incendiar a estante de mil livros; de consumar o amor num esquecimento geral, completa e desprendidamente – ai, semear beldroegas na avenida e apascentar rebanhos de mamutes; ai, gargalhar nas noites novilunas como se louco ou iluminado; adormecer serenamente: nu, liberto, vasto, inverossímil. Ah esta vontade imensa de falar!
Escrito por Antonio Brasileiro às 11h12
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|