82 Poemas de Antonio Brasileiro
   
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ESTUDO 199

 

 

Monstros míticos invadem

minha mansão crepuscular.

 

1.   Quem sou eu na tarde esconsa?

 

E esses monstros no hall

com seus olhos, ódios, urros?

 

A voz que chama do fundo

do Eoceno, é a mesma?

 

E quem são esses que vagam

entre penumbras e ossadas?

 

E essa cicatriz dura?

 

2.   Monstros aqualobros, rostos

entre perdidos e amados.

 

(Ulisses descendo o Hades

conversando com os amigos.)

 

Que fazem em mim estas águias,

por que bicam-me o fígado?

 

(Minha face que a não vejo

nesse espelho inarredável.)

 

3.   Que ventos vêm de tão longe

e desabam minha casa?

Que ventos tão loucos bramem?

 

(Notas graves, sono profundo –

e estamos do lado de lá.)

 

Ah sonhos ah tarde ah sombras,

tomai conta deste crânio:

descei, já, severamente!

 



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h25
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ESTUDO 175

 

 

Estar com o rio não é molhar-se na água.

Nem ser leito.

É ser a água e o leito.

E o mar.

E ser as nuvens do céu.

 

Nosso destino é o que somos. Somos

o destino – o olho d’água

e a foz.

Somos a foz

e o ruído das águas se encontrando.

 

E as nuvens do céu e o homem

sentado numa pedra. E a pedra.

 

 

 

 

ESTUDO 179

 

 

Quero fazer um poema reto.

Sem emoções – que essas nos embaraçam.

Sem sutilezas semânticas ou glaxúrdias

gramáticas.

                    Quero fazer

um poema simples, sem sentido.

(Que o essencial não tem sentido.)

Quero escrever como se uma árvore

soubesse olhar as nuvens: um poema

que só por existir se explique e me explique.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h24
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ESTUDO 157

 

 

Minha poesia é ríspida.

Não há maneira de nublá-la. É ríspida.

Estas lições não aprendi com o vento.

Sou homem.

 O vento

permaneça nas alfombras,

nas frondes. Eu, sou homem.

 

E sinto dores, fomes, injustiças.

Não sou o vento que tange árias dúcteis

nos eucaliptos: sou um homem;

e vejo os homens de banda.

Não aprendi com o vento estas lições.

O vento é o vento, eu

sou um soluço.

 

É ríspida minha poesia.

Não aprendi com o vento, mas com os homens.

E os homens não passam – os homens doem.

 

 

 

ESTUDO 165

 

 

Compor um homem

com suas tramas, seus dramas,

teogonias, gramáticas, soluços;

compor um homem,

do orvalho matinal compor um homem,

do céu cheio de estrelas, do mistério

do homem

compor o homem; compor um homem

da criança que há no homem, do homem

a adivinhar-se em antiqüíssimas retinas;

compor um homem

com seus soluços, gramáticas, teogonias

– e recitá-lo perante os outros homens.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h23
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ESTUDO 124

 

 

Desce sobre mim a paz do longe,

a paz do sublime.

Ergo meus olhos: o horizonte

eleva-se no ar, flutua.

O sol se esquece de ir embora e dança, silencioso,

a valsa sideral dos astros loucos.

As árvores cochicham e olham, mudas,

o insólito.

As beldroegas do campo também sabem

que é enorme o segredo.

Uma coluna vertebral de nuvens

medita o mundo.

O horizonte levita.

A brisa não move as folhas dos arbustos;

escuta. E um calango

brinca em meus pés pois sabe que sou puro.

 

 

 

ESTUDO 148

 

 

Que tanto buscamos?

O rabo esquecido

na alba?

   Quem tanto

nos chama? A voz

esquecida no antanho?

Quem chama? Onde estamos?

 

Quem somos? Sabíamos

que é fim? É

silêncio

   o nome que bradam

as máquinas obscuras

do Tempo? Que tempo?

Que tempos? Quem somos?



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h22
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LOUCURA E POESIA

 

 

Furtava as cores de todas as paisagens

que colhia.

Um dia morreu

e um arco-íris bebia

seus olhos.

 

CENA VISTA DE BINÓCULO

 

 

Em meu chapéu

pousou um rouxinol.

 

 

 

ESTUDO 123

 

 

Morei na barriga de Deus.

Auscultei o centro do mundo, as pulsações

dos seres vivos, mortos e incriados.

Uma dor enorme encheu-me o peito:

ó saber-se deus e não ter forças!

(Residi no abdômen do divino

trinta anos.) Pus meu ouvido no alfa

e no ômega: vi o princípio

e o fim vezes sem conta.

Tudo começa e morre e recomeça

e morre e recomeça. O incriado

vi; a estrela fútil – fósforo

que se acende num estádio de futebol.

(Porque morei no bucho do Perfeito.)

E vi o universo morrer e vi seus ossos:

escuro no escuro maior, cão no silêncio.

A tudo vi e meditei e clamo:

ó saber-se divino e ser só homem!



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h19
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COM / SEM

 

 

Morreste em mim domingo à tarde.

 

Em vão te procurei nos alfabetos:

os hieróglifos da memória emudeciam.

Como um grito

que só tivesse o eco:

não, não me resta nada a perfazer.

Tudo em mim se cumpriu,

só eu não me cumpri.

Do que ficou,

construí um poema amargo.

E os dias a se estamparem nas retinas

me lembrarão sempre

que tu morreste em mim domingo à tarde.

 

E eu em mim morri todos os dias.

 

 

 

CONCERTO P/ FLAUTA E COPOS DE CRISTAL

 

 

Passarei minha vida olhando aquela montanha,

a esperar que ela se mova.

Não se moverá, tenho certeza,

mas passarei minha vida diante dela.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h18
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DOS DIÁLOGOS DE DEUS COM AGAPANTO

 

 

Poeta, ergue-te deste túmulo

de rosas

  plásticas,

ouve meu canto, meu canto, ouve

meu canto e minhas liras, alvas

manhãs renascem nos meus ombros.

 

Tu, ó perfeito, o que ensina aos girassóis

o espanto, o que cativa as borboletas, tu

ó perfeito, vem, vem a mim, tange

meus alaúdes,

 frange

meus olhos, luz, cega-me, ama-me!

 

 

 

O OLHO SEM LINCE

 

 

O que tive perdi num dia surdo

e minha irmã me chamava do quintal.

A casa era salobra e percutia

o tanque estava cheio de piabas.

Minha irmã, sua voz (o dia urdia surdo

os peixes sufocavam-se na sala)

a ecoar meu nome e eu não sabia

eu não sabia que tudo estava morto.

 

E minha irmã não pára de chamar-me.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h18
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TODO POEMA É IRRACIONAL

 

 

Que iguais não somos –

e as iguarias da mesa do nefasto

do nefando

do ufando e ubíquo que habita

o fundo do nosso

occipital

  (que iguais

    não somos)

e se o som de intempéries fere o tímpano (de

intempéries)

melhor não sermos os vivos que sabemos

 (que somos) que

sonos maiores virão nas hecatombes

ao deus maior ofertadas

– maior –

com todo o amor que o peito jamais houve

(que iguais

  – iguais –

não somos).

 

Jamais seremos.

Eu, tão fugaz

as coisas tão perenes!

 

 

 

POEMA DE AMOR

 

 

E era azul o dia da partida.

Não um azul azul como os azuis da alma

colorida, mas negro azul, profunda

escuridão beirando o nada.

  Azul

assim, hermético, escuro –

escuro como a alma, não a calma, a

alma: pois era azul,

luz última, o dia da partida.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h17
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AS ASAS DO PÁSSARO FÊNIX

           p/ Jacinto Prisco

 

 

Acalentarei a esperança de ser belo,

de ter o corpo luminosamente

azul, a esperança

de ser o fogo e o vulcão, a água

e o vulcão, ser

volátil, passáreo, pergaminho

onde se inscrevem estrelas e saudades,

ai acalentarei

pelo resto dos meus dias acalentarei

esta sofreguidão pelo perfeito, esta imagem

de todos os eus que fui,

   súbito

aqui - como um presente

ofertando-se, irmãos: pacificados.

 

 

 

BARCA

 

 

1.   Perscruto os acontecimentos:

a História move seus ponteiros, ágil.

Não estamos montados no vento.

 

Os homens são produtos de que álgebra

enigmática?

   Não nos entendemos.

   Não nos entendamos.

 

2.   Domar acontecimentos. Ó

esperança pueril.

A poesia não aprende, nunca aprende.

 

São címbalos ou canhões?

Prenúncio ou símbolo fantástico?

Que símbolo? que valsa? que sinistra

sintaxe?

 

Chove nos nossos cabelos.

 

3.   De que nuvem ou estrela és feito,

     poeta?

 

Sou feito das vibrações do orvalho

à borda de um pétala.

Contem-me de outra humanidade!



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h17
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DA CAPO

 

 

E como eu estivesse a ruminar-me

nas horas todas idas da jornada

/ e longa fosse a vida e áspera a vida

e a caminhada áspera como a vida /

e como eu estivesse sobre espinhos

e muito não encontrasse em toda parte

/ e cheia de interlúdios e de espinhos

cheia

  a vida – e a estrada não findasse /

e como me incitassem mil erínias

obrigando-me a chorar e a quedar-me

/ e longa fosse a vida e áspera a vida

e muito não encontrasse em toda parte /

 

 

 

CALVÁRIO

 

 

Serei o cálice a ti oferecido

e o amargo;

serei o sol e o frio;

serei a lança perfurando a carne;

a mão que não se estendeu;

as cicatrizes;

serei o âmago dolorido; a

face; a

complacência divina emudecida;

serei a humanidade e o vento;

serei oito milênios de agonia

e espera; serei o desespero

   e o desesperado

   e a coroa de espinhos dando flores.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h16
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LÍRICA

 

 

Amar é temer a si nas horas cruas,

é não encontrar a pérola perdida

onde?

  amar oh amar

é saber-se pequeno, sísifo, somente –

é saber-se somente, unicamente

– oh amar! –

            amar amar

como se a própria face não bastara

– e completar-se na face projetada

e projetar-se no gozo e além do gozo

e além do gozo no filho e além do filho na

eternidade,

          amor ah amor

é saber-se perdido, é não saber-se:

e amanhã será tudo esquecido.

 

 

 

PEQUENO CONCERTO P/ OBOÉ E FLAUTA ÚMIDA

 

 

Contaram-me que te ias.

Com um girassol nos olhos, te ias.

Não olhava atrás, nada existia

que te pudesse lembrar a permanência.

Que te ias, te ias

para regressar nunca mais –

como costumam ir os feridos,

os que não perdoam ou temem perdoar.

 

E me deixavas, comigo

a esperança que tudo desse errado:

que o trem não partisse,

que a chuva caísse, que a guerra

estourasse, que houvesse um eclipse

solar, que fosse sonho e não fosses.

Mas te ias. Só a partida ficava

impressa nas retinas. A partida.



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h15
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A EMENDA & O SONETO

 

 

1.   O soneto

Em meio a temporais, saibamos ser

a haste pequenina que se verga.

Pois uma coisa é certa: tudo acaba.

 

E o céu ficará limpo como era.

 

2.   A emenda

Em meio a temporais, saibamos ser

a haste pequenina que se verga.

Pois uma coisa é certa: tudo acaba.

 

Não só acaba como não acaba.

 

 

 

POEMA

 

 

Ó sideral galáxia de mil sonos!

Onde os primeiros poetas, onde

os domadores indômitos de nuvens?

Dirias, sideral

galáxia, que me perco

em palavras...

Ó sideral galáxia, minha galáxia,

por certo me perdi.

Mas não perdi

a estrela que inscrevi no peito

um dia – e como brilha, como brilha!

 

Mas que fazer de uma estrela que brilha?



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h15
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AS RAÍZES

 

 

1.   Ainda que fôssemos juntos

por estas alamedas sem fim

ainda assim

não jantaria à noite teus jantares.

 

Meus irmãos, não vos traí.

Apenas estudo o inimigo

na horta do inimigo.

 

Não vos traí nem vos traio

na noite em que todos traem.

 

2.   Vou ver o desfile dos anjos

com suas trombetas de papelão

:anúncio de fim dos tempos

ou grande queima de retalhos?

 

Ah, as raízes,

cortai as raízes irmã dos ventos!

 

Vou sonhar com os elefantes da montanha

são treze elefantes verdes galgando a montanha

insólita procissão de elefantes galgando a montanha.

 

 

 

A FESTA

 

e estes tangos noturnos

e estas luzes e vozes

 

/ sons que rompem estas paredes

e depositam-se nos lustres;

aqueles alvos pingentes

tocando-se suavemente /

o som dos teus lábios mudos

sussurrando atrás dos vidros;

o ronco dos automóveis

qual neblina empedernida

/ o cheiro de leve pó

de assoalho e talco Ross;

as gargalhadas em flashes:

instantâneos de terror /

gotículas de suor no buço

oxigenado da moça burra;

gotas mornas sobre o

cristal da taça esquecida

/ quatro velhas numa mesa

observando sapatos;

o homem terçando as chaves

do carro, maquinalmente /

o crooner esgoelando-se,

o matalofonista duro;

uma lâmpada fluorescente

ora apagando-se ou acendendo-se

 

/ e estes tangos soturnos

e estas vozes e luzes /



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h14
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COISAS GUARDADAS

 

 

Florzinha branca,

quando eu me libertar de tudo isso...

 

                      

 

QUADRO NA PAREDE

 

Diante de mim a rendeirinha

de Vermeer, olhos baixos,

medita sem meditar sobre seu mundo

   rendado.

 

Toda a verdade é só ponto de cruz.

 

 

 

DAS DEFINIÇÕES DE MANOEL, O SÃO

 

 

A vida – diz Manoel, o são – é

tempestável. E que é tempestável,

Manoel? Tempestável? Ah, tempestável !

É a vida, filho. Quem lá sabe !

 

 

 

  

VIOLA DE AMOR

 

 

Nas ondas do mar me enlevo

nessas ondas me redimo

meus sofrimentos são nada

nas águas das ondas claras

 

(nos ventos do mar me enlevo

nesses ventos me redimo

   sofrer é estar de passagem

   entre o agora e o eterno)

 

Como as ondas que se quebram

e são sempre as mesmas ondas

vou seguindo meus destinos

como as ondas que se quebram

 

(como os ventos que nos passam

e nos levam os pensamentos

   vou vagando, vendaval

   devassando e devassado)



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h13
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A AREIA E O VENTO

 

 

A areia e o vento,

dois dos meus ancestrais:

um sem fim, outro sem data.

 

Meus passos me levam longe:

pela areia, onde não sei

– no vento, não sei quando.

 

A areia e o vento –

dois motivos secretos

de viver, ir vivendo.

 

 

 

 

MELOPÉIA

 

 

Ai esta vontade imensa de calar!

 

De esparramar o pó dos pensamentos

tão longa e longamente arquivados;

 

de apagar os rastos e os projetos

e incendiar a estante de mil livros;

 

de consumar o amor num esquecimento

geral, completa e desprendidamente –

 

ai, semear beldroegas na avenida

e apascentar rebanhos de mamutes;

 

ai, gargalhar nas noites novilunas

como se louco ou iluminado;

 

adormecer serenamente: nu,

liberto, vasto, inverossímil.

 

Ah esta vontade imensa de falar!



Escrito por Antonio Brasileiro às 11h12
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